COMPORTAMENTO ALIMENTAR – Déficit de habilidades assertivas

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Lia Ades Gabbay*/Especial para BR Press

(São Paulo, BR Press) – Uma das coisas que acho importante no trabalho com pessoas que querem perder peso é avaliar, juntamente com elas, a qualidade de suas relações interpessoais. Há muitos fatores vinculados às relações que, se abordados adequadamente, facilitam demais o emagrecimento, além de melhorarem a autoestima e a comunicação em geral.

Uma das facetas que observo, em termos de relacionamentos, em pessoas que querem mudar os hábitos alimentares, é se há dificuldade em se dizer não e, em particular, se existe uma incapacidade em recusar alimentos. Nesse caso, estamos falando naquilo que chamamos, em Psicologia, de déficit de habilidades assertivas, entendendo-se estas como habilidades de enfrentamento de situações adversas, defesa dos próprios direitos, expressão de sentimentos negativos e discordância.

Assertividade é ter convicção ao expressar as próprias opiniões ou desejos. É saber dizer não, é não ter medo de discordar. É não se sentir obrigado a ir contra as próprias crenças ou desejos quando o outro expressa alguma vontade ou lhe pede algo. Tem a ver com ouvir e levar a sério também as suas necessidades e sentimentos. E comunicar isso como sua opinião.

Assertividade não é agressividade; algumas pessoas não assumem suas posições de forma simples e autêntica, com receio de serem agressivas. Pessoas obesas julgam-se, em geral, menos assertivas em demandas relacionadas à alimentação ou dieta se comparadas a pessoas de peso normal. Isso sugere maior dificuldade em manter o autocontrole.

Controle

Por um lado, existe sempre o perigo de se perder o controle alimentar em situações sociais. Se aceitarmos, todas as vezes que nos for oferecido algo, não há dieta que aguente! Achamos que, se não o fizermos, magoaremos a outra pessoa. Também há o caso de não aguentarmos resistir às tentações, e o simples fato de nos perguntarem se queremos mais um pedaço de bolo, torna o doce irresistível.

Por outro lado, de uma forma mais geral, a pessoa que tem dificuldade em dizer não se sente impotente, sem controle, frustrada, faz coisas que não quer. Isso diminui sua autoestima. Um dos fatores de grande importância no gostar de si mesmo é o sentimento de autorrespeito, de ser capaz de se cuidar. Toda vez que falamos sim para algo que, na realidade, gostaríamos de ter dito não, dizemos de forma subentendida que não temos controle, que não sabemos cuidar da gente mesmo.

Clareza

Assertividade tem a ver com dizer o que se quer de maneira clara. Por exemplo, dizer ao cônjuge ou à mãe que se está decidido a cuidar da própria saúde, que se quer começar uma dieta ou um programa de exercícios. O outro também precisa se adequar às novas atitudes, ajudar na mudança, facilitar o processo, ou mesmo não atrapalhar. Isso nem sempre é fácil, e exige uma atitude assertiva da parte do interessado em mudar.

A assertividade também é a melhor forma de se lidar com os estereótipos preconceituosos e a discriminação em relação ao peso. Saber responder com firmeza a atitudes preconceituosas dos outros alivia a sensação de rebaixamento. A pessoa passa a lidar melhor com a autoexposição a pessoas desconhecidas e a situações novas.

O legal é que a assertividade pode ser treinada. A primeira coisa é observar-se, identificar os momentos nos quais se é assertivo, agressivo ou passivo, e em que situações isto ocorre. Depois, selecionamos um comportamento passivo ou agressivo, que ocorra em situação na qual a assertividade seria mais interessante, para iniciar a mudança.

Há várias formas de treino em assertividade. Observar pessoas que desempenham bem o que queremos atingir, pensar antes na melhor forma de responder e se propor a repeti-la em cada frase de resposta ao outro, preparar-se para situações de difícil controle são algumas delas.

Colocar em prática o novo comportamento, e observar as consequências e reações dos outros ao mesmo é muito importante, e é um próximo passo.  Isso precisará ser feito várias vezes, até que se ganhe confiança e se perceba os resultados positivos da mudança.

Finalmente, escolhemos o próximo comportamento que desejamos treinar, e assim sucessivamente, até ficarmos satisfeitos com o nosso desempenho e com a nossa forma de agir.

(*) Lia Ades Gabbay é psicóloga, com especialização em Psicologia do Comportamento Alimentar, Transtornos Alimentares e Obesidade. Fale com ela pelo e-mail colunistas@brpress.net , pelo Twitter @brpress e/ou Facebook.

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