Mãe coloca a filha de 7 anos em dieta (o pior artigo da Vogue americana de todos os tempos)

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As socialites que escrevem ensaios para a Vogue americana não são conhecidas por sua bondade e humildade, mas Dara-Lynn Weiss, que escancarou o fato de ter colocado a filha de 7 anos numa dieta estilo Vigilantes do Peso, na edição de abril, será historicamente reconhecida como a mais egoísta das mulheres a agraciar as páginas da revista.

 O dilema inicial de Weiss é complicado, claro: o que fazer quando o pediatra diz que sua filha é clinicamente obesa? Mas as justificativas às quais Weiss se apega enquanto descreve as abrasivas — e frequentemente irracionais — estratégias que ela impôs à filha pequena são verdadeiramente nojentas, assim como é óbvio o fato de que Weiss estava projetando na menina, via dieta de um ano, o ódio pelo seu próprio corpo.

A repulsa pelo ensaio só é ofuscada pelas fotos que o acompanham, onde Weiss e sua filha — agora magra e traumatizada pelo que ocorreu no último ano, conforme a própria mãe admite — usam mini-saia e dão risada como garotas sobre xícaras de chá.

De acordo com o Centro de Controle de Doenças e Prevenção, órgão americano da área da saúde, aproximadamente 17% das crianças americanas são obesas. A filha de Weiss, Bea, pesava pouco mais de 42 quilos e tinha 1,35 m de altura, o que a colocava na faixa de risco de ter pressão alta, colesterol elevado e diabetes tipo 2.

Weiss escreve que todos a apoiaram em sua longa missão de fazer Bea ter um peso saudável, mas “ninguém pareceu apoiar meus métodos”. Talvez porque os “métodos” de Weiss foram draconianos, imaturos e afetados por sua atitude disfuncional em relação à comida. “Tudo o que eu tive de fazer foi dar menos comida à Bea”, escreve Weiss. Mas não foi tão fácil assim:

Uma vez, eu privei Bea do jantar (é reprovador) depois de saber que seu aprendizado sobre herança francesa na escola envolvia aproximadamente 800 calorias de Brie, filé mignon, baguete e chocolate. Eu parei de deixá-la participar da “pizza de sexta-feira” quando ela admitiu comer salada de milho junto com o prato principal uma semana. Eu armei um barraco com um barista do Starbucks quando ele mostrou que ignorava as informações nutricionais do chocolate quente para crianças, cujas calorias são listadas entre “120 e 210″ no cardápio: bem, qual desses números está correto? Quando ele não soube responder, eu dramaticamente peguei a bebida das mãos da minha filha, derramei o líquido no lixo e saí pisando duro.

Eu tremo quando me lembro quantas vezes tive de brigar com Bea por causa de um lanche dado a ela pelo pai de um amiguinho ou por um recreador… Em vez de direcionar minha irritação ao adulto, muitas vezes ridicularizei Bea por não recusar o lanche inapropriado. E houve muitos momentos estranhos em festas, quando Bea quis comer os cookies e o bolo, e eu comecei a discutir alto, em público, as razões pelas quais ela não podia fazer isso.

Parece áspero, certo? E foi — para Weiss. “É irritante ver alguém sempre se queixando de estar com fome, ou se recusando a comer algo que deveria comer, mês após mês”, escreve. E também é “exaustivo gerenciar a dieta de alguém, especialmente quando o irmão dessa pessoa tem necessidades nutricionais completamente diferentes”. E você tem o embaraço. “Ninguém gosta de ver uma criança ou sua mãe humilhadas por causa de algo trivial como uma dúzia de calorias”.

Weiss tem apenas a si mesma a culpar pela humilhação, embora seja de estranhar que ela faria um artigo sobre si mesma. “Quem sou eu para ensinar uma garotinha sobre como manter um peso e uma imagem saudáveis?”, ela pergunta, uma vez que passou as últimas três décadas “(odiando) se perguntando como estava seu corpo e (dedicando) uma quantidade excessiva de tempo para mudá-lo”.

Entre outros hábitos destrutivos, Weiss tomou laxantes quando era adolescente e “implorou” para um médico amigo para ganhar supressores de apetite, que comprovadamente causam defeitos nas válvulas cardíacas. “Eu não ingeri qualquer comida, olhei para qualquer cardápio de restaurante, ou fiquei doente a ponto de vomitar sem lançar silenciosamente um complicado algoritmo mental sobre como isso afetaria meu peso”, admite.

Uma pergunta: posar para a Vogue com sua filha magrela que “está linda” e “parece ter enorme orgulho de sua aparência” fez com ela se sentisse melhor em relação a si mesma?

Um ano depois, Bea está 7 quilos mais magra e 5 centímetros mais alta, e foi recompensada com a “compra de muitos vestidos novos” e um aplique de cabelo. Mas ela está feliz? “Apenas o tempo vai dizer se minha intervenção precoce a salvou de uma vida de preocupação com o peso, ou se a levou a isso”, diz Weiss, mas eu não acho que isso seja verdade. Enquanto lia as desculpas sem fim de Weiss para colocar a filha no inferno (um exemplo: “ela não atingiu o ‘obesa’, mas, na verdade, eu gostava do fato de a palavra carregar um assustador tom de diagnóstico”), eu continuei imaginando o que Bea pensou disso tudo. Eu não esperava ouvir seu ponto de vista. Mas então fui até o fim:

Para Bea, a conquista é agridoce. Quando eu pergunto a ela se ela gosta do modo como está agora, se ela está orgulhosa do que conquistou, ela diz sim… Mesmo assim, a pessoa que ela costumava ser ainda pesa sobre ela. Lágrimas de dor preenchem seus olhos quando ela pensa em sua jornada de um ano. “Ainda sou eu”, ela diz em sua ex-ela mesma. “Eu não sou uma pessoa diferente só porque perdi 7 quilos”. Eu protesto. De fato, ela é diferente. Neste momento, aquela garota gorda é uma coisa do passado. Uma lágrima escorre pelo seu rosto bonito. “Só porque isso está no passado”, diz ela, “não significa que não aconteceu”.

Liguei para a Dra. Dolgoff, criadora do “Sinal vermelho, sinal verde, coma certo”, o programa de dieta em que se baseou a dieta de Bea, para saber o que ela achou do artigo. Ela disse que ” Weiss claramente ama e quer o melhor para sua filha”, mas não ficou “encantada” pelo artigo, especialmente porque retrata seu programa de modo equivocado, cujo foco é capacitar crianças.

Ela salienta que os pais se abstêm de humilhar as crianças em público, e permite a elas algumas indulgências enquanto elas estão se divertindo com os amigos. “O programa tem de ser conduzido pela criança”, diz, “e a verdade é que fazer uma criança se sentir mal só causa problemas. Não vai ajudá-la a perder peso, e definitivamente não vai ajudá-la emocionalmente”.

Talvez seja por isso que Weiss e sua filha usaram o programa por apenas alguns meses. Afinal, ele sugere que os pais usem uma palavra-código com as crianças em locais públicos para relembrá-las da dieta. E, se isso falhar, eles devem deixá-las tomar suas próprias decisões e discuti-las depois, durante as consultas médicas.

“Os pais não deveriam reagir em público”, diz Dolgoff. “Eles deveriam estar no time das crianças. Outros pais, na situação de Weiss, poderiam ter percebido que enquanto a perda de peso progredia, houve algumas questões emocionais. Mas ela optou por continuar fazendo do jeito dela. Acredito que se ela continuasse com o programa, no final teria tido mais do que perda de peso: teria também uma criança feliz”. Talvez ela tivesse continuado — mas aí ela poderia não ter seu nome escrito na Vogue.

[Fotos: Jezebel] [Traduzido do Jezebel]

Mostrando 3 comentários
  • Lia*

    ôhhh que coisa mais triste para um criança… que mundo!
    Lu obirgada pelo carinho

  • andrea

    Lu, vi essa postagem hoje cedo e fiquei pasma!
    Tenho uma filha que tá obesa (quase as medidas da menina) mas jamais a obrigaria a fazer dieta e muito menos deixaria sem comer.
    Eu controlo e tudo tem que ter limite.
    Não dá pra passar coisas negativas pra eles nessa idade pq acho que pode gerar distúrbios sérios no futuro.

    Adoro suas matérias.

    • Luciana Kotaka

      Olá Andrea, tudo tem como remediar, passear com a filha no parque, levar o cachorro para correr junto, andar de bicicleta e verificar o que pode estar levando sua filha comer muito, se for ansiedade, averiguar a situação com uma psicóloga.
      Mas concordo contigo, a matéria é de assustar.
      Um beijo

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