Os transtornos alimentares e a imagem corporal

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Marcela Kotait
Nutricionista do AMBULIM (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas) – IPq HC FMUSPO Programa de Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – foi criado no primeiro semestre de 1992, pelo Prof. Dr. Táki Athanássios Cordás, quando não havia no Brasil nenhum centro especializado no tratamento dos transtornos alimentares, baseado nos modelos criados pelo Prof. G. F. Russell na sessão de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres, pelo Prof. C. P. L. Freeman da Universidade de Edinburgo e pelo Prof. A. H. Crisp do Hospital St. George.

Os Transtornos Alimentares são caracterizados por perturbações no comportamento alimentar, podendo levar ao emagrecimento extremo (caquexia – devido à inadequada redução da alimentação), à obesidade (devido à ingestão de grandes quantidades de comida), ou outros problemas físicos. Os principais tipos de Transtorno Alimentar são a Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa, e ambos têm como características comuns uma intensa preocupação com o peso e o medo excessivo de engordar, uma percepção distorcida da forma corporal, e a auto-avaliação baseada no peso e na forma física.

De modo geral, os transtornos alimentares são produtos de uma complexa inter-relação entre aspectos biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Portanto, sendo problemas multifatorais em suas gêneses, ultrapassam a capacidade terapêutica de qualquer um, isoladamente. O tratamento adequado dos transtornos alimentares exige uma abordagem multiprofissional através de médicos psiquiatras, psicólogos (orientação individual, em grupo e familiar), nutricionistas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e educadores físicos.

Estima-se que, ao longo da vida, entre 0,5 e 4% das mulheres terá Anorexia Nervosa, de 1 a 4,2% Bulimia Nervosa e 2,5% transtorno do Comer Compulsivo. Cumpre salientar que Anorexia Nervosa é uma doença grave, com risco de mortalidade em torno de 5 a 15% dos casos.  Quadros mais leves, que não preenchem todos os critérios para a doença, mas que marcam uma profunda insatisfação com o corpo, busca incessante de dietas e cirurgias plásticas, eventuais usos de recursos extremos para emagrecer (vomitar, usar laxante, diuréticos, moderadores de apetite e exercício físico compulsivo) podem abranger 15% das mulheres.

A Anorexia Nervosa caracteriza-se por uma perda de peso intensa e intencional, uma distorção da imagem corporal e ainda alterações no ciclo menstrual. Já a Bulimia Nervosa caracteriza-se por uma grande ingestão de alimentos com sensação de perda de controle, esses episódios são conhecidos como episódios bulímicos. Na bulimia a preocupação excessiva com o peso e a imagem corporal também está presente e pode levar o paciente a métodos compensatórios inadequados para seu controle, como vômitos auto-induzidos, uso de medicamentos (laxantes, diuréticos, inibidores de apetite), exercícios físicos e dietas. A preocupação excessiva com o corpo, baseada no peso corporal e em sua forma são sintomas marcantes tanto na Anorexia Nervosa como na Bulimia Nervosa e atuam como fator agravante desses distúrbios.

A insatisfação corporal é comum em mulheres de todas as idades, especialmente na adolescência quando o corpo se faz um importante componente, e está relacionada à auto-estima, que pode ser justificada pelo irreal padrão de beleza imposto, onde uma magreza inatingível ganha ênfase e status. Para os homens, o padrão de beleza imposto pela sociedade e pela mídia também gera insatisfação da imagem corporal, do peso corporal e da aparência, ainda que em menor escala e gravidade se comparado às mulheres.

Nas últimas décadas os estudos sobre imagem corporal têm aumentado significativamente nas diferentes áreas, com diferentes enfoques e métodos.

Segundo a teoria de Schilder, a imagem corporal é a figuração que temos em nossa mente do nosso corpo, ou o modo que o corpo se apresenta. Para Thompson, 1996, o conceito de imagem corporal envolve três componentes: o perceptivo, que relaciona a precisão da percepção da aparência física estimando o tamanho corporal e o peso; o subjetivo, que envolve aspectos como satisfação com a aparência e a preocupação e ansiedade a ela associada; e por final o componente comportamental que focaliza as situações evitadas pelo indivíduo por experimentar desconforto associado à aparência corporal.

Em 2002, McNamara associou crenças culturais como determinantes sociais na relação com o corpo humano. Já Stice, também em 2002, propôs o reforço social e a modelagem como fatores atuantes dos comportamentos e atitudes, por exemplo, um adolescente pode querer seguir uma dieta caso perceba que a mídia glorifica o corpo esbelto e magro e critica as pessoas com excesso de peso e o processo em que o indivíduo observa comportamentos de outros e os imita.

Existem vários instrumentos utilizados para avaliação da imagem corporal, tanto em populações clínicas, como em populações não-clínicas. Dente eles, o mais utilizado é o Body Shape Questionnaire, BSQ, desenvolvido por Cooper e colaboradores em 1987, traduzido e validado para uso na população brasileira por Cordás e Neves, de amplo uso em estudos.

No AMBULIM, os profissionais das diversas áreas envolvidas trabalham a insatisfação corporal e os distúrbios de imagem corporal dos pacientes em tratamento, em grupos de psicoterapia, nutrição, grupos interdisciplinares e individualmente, abordando os diferentes aspectos envolvidos.

Para conhecer mais sobre o trabalho do AMBULIM, sobre transtornos alimentares e distúrbios de imagem corporal, acesse o site www.ambulim.org.br e entre na sessão “leitura recomendada”.

http://www.jornaljovem.com.br/edicao15/convidado08.php

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