Transtornos Alimentares e Diabetes Mellitus

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Claudia Cozer – Doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; membro da Diretoria da ABESO.
Fernanda Pisciolaro – Nutricionista do Ambulatório de Transtorno Alimentar (Ambulim) do Hospital das Clínicas da FMUSP; membro do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da ABESO.

A relação entre transtornos alimentares (TA) e diabetes mellitus (DM) ainda não possui uma definição oficial e não é bem conhecida entre os profissionais de saúde, mas possui prevalência significativa, estimada em aproximadamente 30% dos pacientes com DM tipo 1, em associação com bulimia nervosa, ou anorexia nervosa, e 19% dos indivíduos com DM tipo 2, em geral associados com o transtorno da compulsão alimentar periódica.

Alguns fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de um TA em pacientes com DM tipo 1 são: a) ganho de peso, provocado pela introdução ou uso prolongado da insulina; b) insatisfação com o corpo, em consequência do ganho de peso ou mudanças corporais no período pré-púbere ou púbere; c) o manejo nutricional restritivo, imposto pela necessidade do controle glicêmico; d) omissão do uso ou redução da dose da insulina, deliberadamente, como forma de controle de peso – relatada por aproximadamente um terço dos indivíduos com DM1.

Estudos mostraram que adolescentes com DM1 fazem uso de práticas purgativas e restrição alimentar mais frequentemente que controles sem DM. Em relação à insulina, foram encontrados relatos de omissão e redução do uso em 7,4% a 31% dos adolescentes, com o objetivo de influenciar a forma e o peso.

No Brasil, o primeiro estudo original realizado por Papelbaum et al. (2005), avaliando pacientes com DM tipo 2 com comorbidade de TA, encontrou 20% deles com sintomas de TA e 10% preenchendo critérios para transtorno da compulsão alimentar periódica. Em 2009, Cardoso encontrou até 45% de uma amostra de indivíduos com DM tipo 1 com comportamentos de risco para TA e relato de omissão de insulina em 8,5%, evidenciando um aumento de risco para TA de 9,34 vezes para os que omitiam insulina.

A mortalidade de indivíduos com DM tipo 1 e anorexia nervosa chega a ser 15,7 vezes maior quando comparada com mulheres somente com DM. A omissão da insulina pode aumentar o risco de morte em 3,2 vezes.

Características
Algumas características podem ser encontradas nos pacientes com DM e TA, como deterioração do funcionamento psicossocial, sintomas de depressão, interrupção do sono, falta
às consultas, significante ganho ou diminuição do peso, prática de dietas restritivas para controle do peso, exagero na prática de exercícios físicos, preocupação excessiva com o planejamento do cardápio e composição dos alimentos, problemas com a imagem corporal e autoestima, aumento da negligência do tratamento do DM – como omissão da insulina ou do monitoramento da glicose sanguinea; adesão de outros medicamentos –, frequente acidose diabética, quadros graves e frequentes de hipoglicemia, amenorreia ou alterações menstruais, atraso no crescimento e desenvolvimento puberal, aumento de complicações agudas, aparecimento precoce de complicações crônicas (como retinopatias, nefropatias, neuropatias e
cardiopatias).

Os profissionais que trabalham com pacientes portadores de DM devem ficar atentos a sinais e padrões de comportamento alimentar transtornados, para que possam  avaliar a coexistência de um TA e determinar o nível adequado de tratamento.

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado dos TA em pacientes com DM parecem se correlacionar com um melhor prognóstico da DM, sendo recomendado o tratamento interdisciplinar. Deve-se avaliar a necessidade de hospitalização e o risco de morte.

Uma postura positiva em relação aos alimentos, realista e com flexibilidade em relação ao planejamento das refeições, e pouca ênfase no gerenciamento do peso e dinâmicas para diminuir a insatisfação corporal devem ser adotadas. As recomendações nutricionais devem incluir todos os alimentos de forma moderada, equilibrada e em porções adequadas. Não se deve adotar recomendações restritivas, que excluem ou proíbem determinados alimentos.

O foco da alimentação saudável para pacientes com DM e TA deve ser na composição da refeição, com todos os grupos alimentares, com cardápios individualizados e de acordo com os esquemas de prescrição da insulina. Maior atenção deve ser dada à busca de uma alimentação
equilibrada e ao consumo de alimentos necessários, ao invés de proibições. Embora o controle glicêmico seja muito importante para a prevenção de complicações, o início do tratamento deve ser focado na melhora dos comportamentos de TA, sem ser restrito na busca por um controle glicêmico ideal. Maior foco na administração da glicemia pode ser feito à medida que os sintomas de TA melhorem.

Referência
1. ALVARENGA M, SCAGLIUSI FB, PHILIPPI ST. Nutrição e transtornos alimentares: avaliação e tratamento. Barueri, SP: Manole, 2011.

Site – http://www.abeso.org.br/pagina/340/alimentacao.shtml

Comentários
  • cris

    oi, Lu, acompanho sempre seu blog!
    Nossa, ando numa compulsao alimentar terrivel, nao sei mais o que fazer…
    Estou lutando para achar uma solução que realmente resolva!
    bjs, Cris

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