Uma questão de peso

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HÉLIO SCHWARTSMAN

SÃO PAULO – A polêmica dos remédios para emagrecer opõe médicos sanitaristas, cujo bastião de resistência é a Anvisa, a clínicos, entrincheirados na Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
A disputa entre as especialidades é antiga e revela vieses profissionais característicos: enquanto o sanitarista olha para tendências e números agregados, os clínicos pensam sempre em pacientes individuais.
E, em termos globais, parece forçoso concluir que anorexígenos em geral, assim como dietas, não são lá muito eficientes. Vários estudos mostram que a redução média de peso é modesta e geralmente de curta duração. Como as drogas apresentam risco de efeitos adversos, não haveria muita razão para utilizá-las.
Para os clínicos, porém, é enganoso guiar-se por médias. Vale lembrar que, na média, a humanidade tem um testículo e um seio.
Desde que exista um grupo de pacientes para o qual o remédio traz mais benefícios do que riscos -o que, numa população de quase 200 milhões, é praticamente uma fatalidade estatística-, não há motivo racional para retirar a droga do arsenal terapêutico à disposição do médico. “O abuso não tolhe o uso”, já ensinavam os antigos romanos.
Isso bastaria para dar razão aos clínicos e encerrar o debate. Ocorre que existem outras maneiras de interpretar o histórico de decisões da Anvisa nessa área.
Se a agência insiste tanto em limitar e regular a oferta de anorexígenos, é porque chegou à conclusão de que os médicos, como categoria, não são muito confiáveis para prescrever remédios, pois receitam qualquer coisa para qualquer um, justificando assim medidas radicais.
É até possível que isso seja verdade, mas, nesse caso, o que temos é uma das principais autoridades sanitárias do país afirmando nas entrelinhas que não podemos confiar nos médicos. Não é lá uma mensagem muito alentadora.

helio@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0510201103.htm

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