Imperfeições irreais

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O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de intervenções cirúrgicas, atrás apenas dos Estados Unidos. Em sua maioria, trata-se de cirurgias estéticas, e, entre elas, destaca-se a lipoaspiração. Se até há pouco, as mulheres eram a maioria da clientela, a procura por parte dos homens vem aumentando. Os próprios médicos afirmam que a demanda tem crescido e o mercado da cirurgia plástica está em expansão. Outro mercado bilionário é a indústria da beleza, representado pelas empresas de cosméticos e perfumaria. A busca pelo belo cria uma demanda e é lucrativa.

Não há mal em tratar da pele, dos dentes, do cabelo, do corpo e querer-se mais bonito. A vaidade bem dosada é importante para a autoestima e para os relacionamentos sociais e profissionais. E os avanços da ciência proporcionam meios para melhorar a qualidade de vida e bem-estar, saúde e longevidade. Exemplo disto são as cirurgias reparadoras, como a de fissura labiopalatina (abertura no céu da boca e/ou no lábio), a reconstrução mamária (fundamental para mulheres vítimas de câncer), além das relacionadas a tumores, acidentes e queimaduras.

Não se trata de ser contra ou a favor de procedimentos estéticos, mas de ter uma visão realista sobre eles, sem perder de vista o aspecto crítico e reflexivo. O que se deve questionar não é o procedimento, mas a necessidade do mesmo. Quando uma jovem procura um dermatologista ou cirurgião plástico, queixando-se de um ou mais defeitos pouco significativos ou mesmo ilusórios no rosto ou no corpo, em busca de tratamento ou intervenção para se sentir não exatamente feliz, mas menos angustiada, algo está errado.

Passar por vários procedimentos sem se satisfazer com o resultado e ignorar a opinião de família e amigos sobre a aparência, não aceitar que se tem uma percepção exagerada do que se considera como imperfeição e recusar orientação são sinais de problemas com a autoimagem e podem indicar um transtorno. Inicialmente denominado dismorfofobia, termo originário do grego, que significa “medo da forma anormal” (dis=anormal, morfos=forma, fobos=medo), o transtorno dismórfico corporal (TDC) caracteriza-se por preocupação excessiva por um defeito físico mínimo ou inexistente que causa sofrimento significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida do indivíduo.

O TDC faz parte do espectro obsessivo-compulsivo e se distingue por obsessões, na forma de pensamentos, imagens e impulsos indesejáveis e intrusivos, que provocam sensações de desconforto ou ansiedade, e levam o indivíduo a comportamentos compulsivos ou de evitação. Como seu próprio nome diz, é um transtorno, e como tal deve ser encarado. Ele não será superado com sucessivas cirurgias plásticas ou outros procedimentos.

Quem desenvolve TDC é afligido por uma compulsão que o leva a procurar soluções externas para o intenso sofrimento causado pela forma como o sujeito se enxerga. Para quem tem TDC, o espelho de casa é como aquele de parques de diversão que estica, achata, deforma o rosto e o corpo. E nenhuma mudança externa será suficiente para solucionar a infelicidade: a feiura é imaginária e o bisturi não é varinha mágica.

Maria Cristina Ramos Britto

www.psicologiaesaude.com

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